A poluição sonora, a raiva que você sente e seu direito de sossego.


  1. Um carro passa, você sente a chão vibrar. O som é altíssimo, mas está tudo certo, você já se acostumou com isso. 
  2. Um bar da esquina a noite, um som ao vivo com caixa e amplificadores ao ar livre. Você mal consegue dormir, mas está tudo bem, é assim mesmo. 
  3. Uma festa na escola de seu filho, encontro de pais. O som do microfone e da música de fundo estão insuportáveis pela qualidade e pelo volume, mas é assim mesmo, você parece o único a ter se incomodado. Deixa pra lá. 
  4. O vizinho adora ouvir música alta, você tem um recém nascido em casa. Você pensa 'se eu for reclamar é possível que ele aumente o som ainda mais. Deixa pra lá, meu filho acostuma'. 
  5. Você caminha na rua, acabou de descer de um ônibus, o trânsito está parado, não há saída para os carros e mesmo assim as buzinas não param. São fortes e demoradas. Ninguém quer saber se existe um pedestre passando ao lado. Você segue com um estresse inevitável. É assim mesmo. Nem adianta reclamar. 
  6. Na sua casa, seu filho na sala assiste televisão em som elevado, você cansado tenta dormir. Vira de lado com o travesseiro sobre a cabeça e se convence de que não vale a pena enfrentar seu filho. Afinal ele é jovem e quer curtir a vida. 

Certo? 

ERRADO! Está tudo ERRADO! Todas as situações acima tratam de exemplos de poluição sonora e desrespeito ao espaço alheio. Todos temos direito a nosso espaço e sossego e nisso está incluído nosso espaço sonoro. Além disso, poluição sonora é crime. Quando você se cala e aceita que está tudo bem você está colaborando com esse abuso.

Art. 54. Causar poluição de qualquer natureza em níveis tais que resultem ou possam resultar em danos à saúde humana, ou que provoquem a mortandade de animais ou a destruição significativa da flora: Pena - reclusão, de um a quatro anos, e multa.

Há diversas pesquisas que comprovam que desajustes sonoros causam danos à saúde. Entre esses danos estão efeitos auditivos, de perda de audição, e não auditivos, como raiva, estresse, doença cardiovascular, distúbio do sono e distúrbios cognitivos.

A OMS reconhece como problema de saúde publica a poluição sonora e seus efeitos sobre crianças e adolescentes. Geralmente nessa idade, os mecanismos para lidar com o estresse são menos eficazes e as consequências de irritabilidade, dificuldade de concentração e frustração tem efeito direto no desempenho escolar. Há mais de 20 estudos que demonstram os efeitos da poluição sonora no desempenho cognitivo. Um deles avaliou mais de 2.800 crianças entre 9 e 10 anos de idade que estudavam perto dos aeroportos internacionais de Londres, Amsterdam e Madri – os autores demonstraram uma relação independente entre o nível de ruído e o desempenho escolar: um aumento de somente 5 dB  nos ruído médio relacionado aos aviões, causava um atraso de 2 meses em habilidades de leitura em crianças da Inglaterra e 1 mês naquelas que estudavam em Amsterdam. Esses resultados mostram que não há limiar seguro de ruído na sala de aula e a recomendação é que o durante as aulas o ruído ambiente não ultrapasse 35 dB.

Você imagina que isso é cultural e resultado de anos de má educação de um povo. Pode ser isso mesmo, mas não é certo se calar. Não é certo se tornar refém. É preciso que todos falem. É preciso que todos os incomodados registrem esse incômodo. É preciso que todos os que sentem os efeitos dessa poluição registrem isso em boletins de ocorrência. Boletins de ocorrência servem também para levantamentos estatísticos e de pesquisa que podem resultar em uma mudança de um modus operandi através do exercício de leis mais rígidas. Portanto, reclame! Reclame legalmente. Não fique apenas nas redes sociais. Reclame como cidadão. Você tem esse direito garantido por lei.

Uma escola não pode expor crianças desde bebês a sons altos. Por mais infantis que sejam as 'musiquinhas'. Principalmente quando se entende que escola trabalha com ensino e educação. E não se trata de educação doméstica, trata-se de educação sonora. De ensinar a ouvir, a fazer silêncio e a respeitar o silêncio alheio. Trata-se de ser exemplo e modelo. Crianças que gritam, com professores que gritam e filhos de pais que gritam é o que sobra pra uma sociedade que não reconhece a poluição sonora como um problema, ou que já se rendeu a ela. PS é um problema de saúde pública.

Um carro que passo com som alto está fora da lei. Você não é obrigado a ouvir. Anote a placa e reclame. Registre um boletim de ocorrência.

Um bar que entra na madrugada com som alto e desrespeitoso está fora da lei. Reclame!

Um visinho que não respeita sua presença ao lado e lhe força ouvir o som que ele escolheu pra ele está fora da lei. Reclame com as autoridades. Reclame!

Seu filho que roubou seu espaço sonoro porque está na adolescencia em fúrias não está certo. Imponha-se! Estabeleça limites. Reclame!

Não é questão de ser chato. É questão de cidadania. Reclame para que o mundo possa ser tomado de pessoas com bom senso. Pessoas que se sabem viver em sociedade e que não são donas do espaço alheio. Pessoas que não são ditadores tiranos que impõe aos outros o que eles tem de ouvir e em que volume. Simplesmente RECLAME com as autoridades competentes.

Não vai dar em nada? Vai! Uma enxurrada de reclamações sempre dá em algo. A polícia batendo à porta sempre resulta em algo. Costumes ruins podem ser mudados. RECLAME!

Faça um boletim de ocorrência online. Registre nos sites de reclamação. 

A poluição sonora e a sua raiva, falta de sono, estresse e desassossego estão muito relacionados. Reclame pelo bem da saúde sua e de muitos.

Pesquisadores europeus demonstraram que mais de 50% das pessoas que vivem em cidades com mais de 250.000 habitantes estão expostas a um nível médio de ruído maior que 55 dB por ano, nível que apresenta risco à saúde.

Atualmente, a poluição sonora é enquadrada, de forma expressa, como contravenção penal (Decreto-Lei 3.688/41), suscetível à pena de prisão de quinze dias a três meses, ou multa.

RECLAME!